Hoje, no comboio, vinha a dar conta da minha leitura actual (Hard-boiled Wonderland and the End of the World, de Haruki Murakami), e, depois de um plot twist que me deixou de queixo à banda (e me iluminou sobre a verdadeira ligação entre as duas histórias do livro), deparo-me com um puzzle teórico bastante interessante:
Como se consegue gravar uma enciclopédia inteira... num palito?
Sim, leram bem: num palito. Ora a coisa tem uns certos contornos matemáticos, mas é capaz de ser fácil de seguir o suficiente. A ideia é transformar o texto em números; cada letra (dígito, símbolo, espaços, etc.) é transformada num número de dois dígitos, por exemplo:
- 0 → 00
- 1 → 01
- 2 → 02, etc.
- espaço → 10
- A → 11
- B → 12, etc.
- Z → 36
- ponto → 37, etc., etc.
Se quisermos, por exemplo, escrever "AMOR.", ficamos com 1123252837. A este número, juntamos um zero e uma vírgula (ou um ponto decimal, conforme a nacionalidade e o gosto de cada um
), ficando com algo como: 0,1123252837. A ideia agora (e relembro que este é um puzzle teórico) é cravar uma marca no palito, a uma distância correspondente a respectiva fracção do comprimento do palito (por exemplo, se tivéssemos ficado com 0,25 a marca seria feita a um quarto do comprimento do palito de distância de uma das extermidades — que seria considerada “o zero”).
Desta forma, independentemente do comprimento do palito, dada precisão suficiente, é possível escrever infinitos registos de comprimento infinito.
No livro, este puzzle teórico de cariz extremamente matemático é utilizado como metáfora para a vida, transmitindo a ideia de que infinitude não é uma questão de tamanho, mas sim de precisão. Que a nossa experiência pessoal de eternidade não passa por viver mais tempo, mas por tirar o máximo de partido de cada momento.
Pode talvez parecer desinteressante para uma boa parte de quem ler, especialmente pelo embrulho matemático da coisa (essa ciência tão pouco popular), mas é uma excelente lição das duas coisas: de matemática, e de vida.