Triunfo? Quinta, se faz favor!
Aviso: Este post contém pequenos pormenores do enredo do livro Animal Farm (em português, A Quinta dos Animais ou O Triunfo dos Porcos) de George Orwell. Se não conhecem o livro e não querem ser “spoilados” até o lerem, não leiam mais.
Terminei hoje de ler o Animal Farm de George Orwell. É um livro que se lê num instante, mas como só leio nos transportes (e mesmo assim é só se não apanhar um jornal gratuito com Sudoku) ainda demorei uns bons dias. Adorei o livro, mesmo sabendo desde cedo, mais ou menos, onde aquilo ia dar — já que já conhecia a célebre frase “All animals are equal, but some animals are more equal than others”. Soube depois que aquela alegoria representava um período em particular da história da União Soviética, mas fiquei com a sensação de que quase todas as voltas que a revolução dos animais foi dando se podiam rever na política de hoje em dia. Não vou desenvolver muito o tema das comparações com personalidades e eventos políticos, pois política é algo que não gosto particularmente de discutir, muito menos num blog — ainda me caem aqui os comentadores residentes do Público a invocar “o Socras” por tudo e por nada.
Notei também em várias situações da história algumas semelhanças com o regime retratado, também por George Orwell, no Nineteen Eighty-Four. O virar e revirar de casacas entre querer a morte do Mr. Frederick e negociar amistosamente com ele (e recíproca mudança de postura face ao proprietário da outra quinta, Mr. Pilkington) e o rasurar incidioso dos Sete Mandamentos (e respectivo jogo psicológico com a memória colectiva do que estava ou deixava de estar escrito) soaram-me imensamente familiares.
Apesar de ter lido no original, não consigo evitar de pensar no título que a tradução para português costumava ter: O Triunfo dos Porcos. Este título só vem reforçar a ideia que tenho para mim: quem arranja os títulos portugueses para os livros não os lê. Alguma vez se pode dizer que os porcos triunfaram? Apenas se tornaram iguais ao inimigo que começaram por combater, não o suplantaram. Maior triunfo é o do Homem, que vê uma espécie corromper-se sozinha e tornar-se sua aliada na exploração das restantes espécies. Houve quem tivesse achado mal a Antígona ter publicado uma tradução com o título A Quinta dos Animais quando toda a gente já conhecia o livro como O Triunfo dos Porcos. Eu cá acho, principalmente depois de ter lido o livro, que se fez justiça e se corrigiu um erro crasso — até porque, mesmo que o título corresponda à realidade do enredo, eu não quero saber como o livro acaba só de olhar para a capa.


