Da credibilidade dos protestos
Acampamento Universitário pela Acção Social – 24 de Março. “Traz a tua tenda!”, dizem eles.
Estou a par do problema que este protesto versa. Conheço as estatísticas de diminuição nos apoios concedidos, e de que a esmagadora maioria das bolsas (76% do universo de bolseiros) não chega para pagar uma propina máxima e comer sempre na cantina (cf. Deliberação do Senado da UL). Conheço de perto casos de extrema injustiça na atribuição de bolsas. Concordo com o manifesto do início ao fim.
Mas vejamos: eu não vivo da Acção Social, ganho uma bolsa de investigação minimamente jeitosa (cujo valor, ao contrário do custo de vida, não é actualizado desde 2002, mas ao menos também não foi diminuido), ainda não tenho uma renda para pagar, a entidade financiadora paga sempre a tempo e horas — e, no entanto, não tenho uma tenda, porra! Até podia ter, mas não seria coisa em que me ia lembrar de repente de gastar dinheiro. Como funciona então este tipo de raciocínio para quem, supostamente, está “supé' à rasca”, prestes a desistir da faculdade e viver da caridade alheia? A tenda mais barata que a Decathlon (que é, como todos nós sabemos, o patamar acima da loja dos chineses no que toca a produtos bons, bonitos e baratos) vende custa tanto quanto 11 almoços na cantina, e para lhe dar algum uso para além de acampar no relvado da Reitoria (porque é claro que quem está à rasca não se pode dar ao luxo de comprar uma tenda só para um dia) ainda tem de gastar-se algum dinheiro extra (aquele que, supostamente, não há).
Ao menos promoviam um acampamento com sacos-cama: são mais baratos, e como se passa mais frio sensibilizava melhor os destinatários da mensagem — que, para ajudar à festa, nem sequer é na Alameda da Universidade que se encontram, e sabe-se lá em que regime de funcionamento estarão depois do que se pode passar hoje no Parlamento...
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