Banco Alimentar contra a fome
Neste país há fome. [...] Não é suposto virar-se a cara e fazer de conta que não se vê.
— Made in Lisbon
Ao lado de minha casa, mesmo ao lado, porta com porta, há um Pingo Doce. Quando há campanhas do Banco Alimentar, dou lá sempre um saco, chego a ir de propósito só para isso. Ontem nem sabia que havia recolha, fui lá comprar umas coisas e, assim que percebi que havia recolha, fui direitinho buscar um saco vazio. Não dei muito, desta vez: uma lata de salsichas, uma lata de atum, e um pacote de massa. Mas ao menos dei. Fico com a consciência tranquila de que, com 1 euro e meio (que não me deixou gravosamente mais pobre), posso ter dado de jantar a 3 ou 4 pessoas necessitadas. Custava assim tanto muito mais gente fazer o mesmo? 1,50€ não chega a meio maço de tabaço, porra! Tal como a Maria, passei por privações, mas não passei fome. Não passei porque, no meio das privações, houve quem passasse fome para que eu não passasse. O pior que me aconteceu foi comer iscas quase todos os dias, magistralmente confeccionadas de formas diferentes para parecer que era um prato diferente. Não passei fome, mas vi-a passar, e isso não se esquece.
Adiante.
O donativo que referi foi depois do almoço. Ao fim da tarde tive de lá voltar porque me tinha esquecido de comprar algo. Fui abordado pelos voluntários do Banco Alimentar, mas prontamente lhes dei as boas tardes e disse que já tinha ali ido anteriormente e tinha feito o meu donativo. Quando estava na fila para a caixa, pus-me a reparar nas pessoas que entravam, e passavam pelos voluntários, e é incrível a esmagadora maioria de pessoas que baixa ligeiramente o pescoço e passa a direito, sem dizer ai nem ui, e deixando os voluntários a “falar para a mão” (nem para a mão é, é mesmo para o ar). Ninguém é obrigado a dar, não contrario isto. Mas ver tanta gente enterrar a cabeça na areia perante tudo isto dói. Como dizia o meu pai, “a boca que diz ‘sim’, diz ‘não’ ”. E di-lo tão melhor quanto bem alimentada esteja: que nunca lhes falte.
Edit: Wow, não imaginava que este post ia dar esta explosão de visitas e comentários. Obrigado ao SAPO por ter destacado proeminentemente este post na sua página inicial.

