Lei de Murphy a subir e a descer
Graças à recém-adquirida tutela da Câmara Municipal de Sintra no que toca a inspecção de elevadoresde prédios, aliada àquele fenómeno tipicamente português denominado “tesão do mijo”1, eu (e mais uns quantos conhecidos em prédios das redondezas) estou sem elevadores (ambos!) no meu prédio.
Ora este vosso amigo mora num 5.º andar: são precisamente 100 degraus até ao rés-do-chão. O que vale é que, ao dia de semana, é sair de manhã e voltar ao fim da tarde — duas sessões de exercício aeróbico: uma mais leve de manhã (a descer) e uma provazinha de esforço à tarde/noite (subir depois de um dia de faculdade).
Ao fim-de-semana, nem por isso, mas dava-se um jeito: estava a pensar fazer café em casa, para não ter de ir à rua só para beber café e voltar. Dá-se, porém, que soube depois que tinha de ir à rua — imagine-se, levar o relógio à minha mãe, que se tinha esquecido dele em casa (e claro, com 100 degraus para voltar a subir, e 100 degraus para voltar a descer, e sem umas pernas de jovem na primeira metade da sua 3.ª década de vida, não voltou atrás).
Então lá tive de ir beber café à rua: desço os 100 degraus, saio da porta, falo a uma conhecida que passeava o filhote de meses no carrinho, e depois de lhe falar acende-se uma lâmpada na minha cabeça e digo para mim mesmo (mas audível, creio, pela romena que pedia sentada no passeio): “Merda!”
Esqueci-me da merda do relógio — do único propósito para eu vir beber café à rua.
Posto isto, acho que se pode classificar, mais do que como “lei de Murphy”, como “lei da física“: a probabilidade de esquecer algo em casa é directamente proporcional ao quadrado da dificuldade em voltar para a buscar.
1 Para quem não saiba, a ”tesão do mijo” consiste no entusiasmo exagerado que um determinado sujeito imprime a uma actividade nos seus tempos iniciais.
