Mega-pirete
Eu sei que a greve, a revolta, e essas coisas todas, são um direito que nos assiste. Sei que o cinto está a apertar. Sei que muita gente acha que é preciso fazer como os gregos e partir tudo, e fazer greves de semanas. Sei também que muita dessa gente pseudo-revoltada faz parte dos <inserir quantidade inferior a 50% para servir como metáfora para o conjunto minoritário de pessoas que contribuiram para esta merda>. Uns compraram carro, casa no cu de Judas (porque morar na cidade é caro, ir e vir todos os dias de carro não), Bimby, plasma, Blu-Ray, iPhone, iPad, PlayStation, metade do IKEA, deram-lhes crédito para tudo isso para lá das possibilidades, e agora a bolha rebentou. Outros trabalham com uma parte do ordenado a vir "pela porta do cavalo", arrendam casa e fazem cambalacho com o senhorio para pagarem uma parte da renda por fora e candidatarem-se ao Porta 65, mentem à DGES para terem bolsa de acção social para pagar o traje e as bebedeiras, dispensam a factura na oficina para não pagarem o IVA, e põem todas as culpas nos políticos.
Pessoalmente, prefiro estar aqui, de consciência tranquila em como não vivo para lá das minhas possibilidades nem de esquemas. A trabalhar árdua e honestamente, a produzir papers e a ensinar a próxima geração de engenheiros, a constituir a massa crítica científica e tecnológica de Portugal. Prefiro estar a trabalhar, dentro das minhas competências, para poder ter razões para mandar para o caralho, com todas as letras, quem acha que Portugal é um país de segunda linha. Hoje foi aceite mais um paper de minha co-autoria, vou preparar os slides desse paper e os de um seminário que apresento para a semana, e mais logo dou aulas a uma turma particularmente trabalhadora de alunos do 2.º ano — e gosto de pensar que um dia assim é uma pequena parte de uma pequena parte de um mega-pirete àquela gente toda.
(Quanto aos destinatários do mega-pirete, não falo apenas da Merkel, da Moody's, e dos finlandeses. Falo também de quem passa a vida a mamar na generosidade base do nosso sistema de "estado social", e ainda nos esquemas que aproveitam a ingenuidade desse mesmo sistema para aumentar unilateralmente essa generosidade, e agora dizem que já deviam era ter ido "lá para fora".)
