
Conteúdo: CC by-nc-nd 2008–2010 Piolho Sintético.
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2010 Piolho Sintético, sobre o design Notas Soltas 2 dos Blogs do SAPO.
Porque é que, sempre que vejo o título do livro “O cãozinho que chegou no Natal”, leio “O cãozinho que chegou ao Natal”, e imagino um cão com uma doença qualquer que lá se safou e ainda sobreviveu até ao Natal?
Aviso: Este post contém pequenos pormenores do enredo do livro Animal Farm (em português, A Quinta dos Animais ou O Triunfo dos Porcos) de George Orwell. Se não conhecem o livro e não querem ser “spoilados” até o lerem, não leiam mais.
Terminei hoje de ler o Animal Farm de George Orwell. É um livro que se lê num instante, mas como só leio nos transportes (e mesmo assim é só se não apanhar um jornal gratuito com Sudoku) ainda demorei uns bons dias. Adorei o livro, mesmo sabendo desde cedo, mais ou menos, onde aquilo ia dar — já que já conhecia a célebre frase “All animals are equal, but some animals are more equal than others”. Soube depois que aquela alegoria representava um período em particular da história da União Soviética, mas fiquei com a sensação de que quase todas as voltas que a revolução dos animais foi dando se podiam rever na política de hoje em dia. Não vou desenvolver muito o tema das comparações com personalidades e eventos políticos, pois política é algo que não gosto particularmente de discutir, muito menos num blog — ainda me caem aqui os comentadores residentes do Público a invocar “o Socras” por tudo e por nada.
Notei também em várias situações da história algumas semelhanças com o regime retratado, também por George Orwell, no Nineteen Eighty-Four. O virar e revirar de casacas entre querer a morte do Mr. Frederick e negociar amistosamente com ele (e recíproca mudança de postura face ao proprietário da outra quinta, Mr. Pilkington) e o rasurar incidioso dos Sete Mandamentos (e respectivo jogo psicológico com a memória colectiva do que estava ou deixava de estar escrito) soaram-me imensamente familiares.
Apesar de ter lido no original, não consigo evitar de pensar no título que a tradução para português costumava ter: O Triunfo dos Porcos. Este título só vem reforçar a ideia que tenho para mim: quem arranja os títulos portugueses para os livros não os lê. Alguma vez se pode dizer que os porcos triunfaram? Apenas se tornaram iguais ao inimigo que começaram por combater, não o suplantaram. Maior triunfo é o do Homem, que vê uma espécie corromper-se sozinha e tornar-se sua aliada na exploração das restantes espécies. Houve quem tivesse achado mal a Antígona ter publicado uma tradução com o título A Quinta dos Animais quando toda a gente já conhecia o livro como O Triunfo dos Porcos. Eu cá acho, principalmente depois de ter lido o livro, que se fez justiça e se corrigiu um erro crasso — até porque, mesmo que o título corresponda à realidade do enredo, eu não quero saber como o livro acaba só de olhar para a capa.
Em 2005, depois de ir a Paris, encontrei um livro que tinha saído em português na altura, que achei engraçado comprar para ler e comprovar estereótipos: "A Year in the Merde - Um Ano em França", de Stephen Clarke. O original tinha saído algures em 2004.
Por esta altura (2005), tinha já saído uma sequela, "Merde Actually", mas obviamente ainda não havia em edição portuguesa — já que tinha o primeiro em português, queria continuar. Saiu entretanto outra sequela, "Merde Happens". E nada do "Merde Actually" em português.
Até este ano, 2009. Há uns meses, vi na FNAC a edição portuguesa acabadinha de publicar, e claro, comprei (mesmo com o desconto de aderente, ainda ficou por €15). Ainda não li (pormenor mesquinho no meio desta saga), mas a Cat leu e diz que se recomenda.
Hoje (precisamente depois de conversa com a Cat sobre estes livros), lembrei-me da ideia peregrina (ou nem tanto, já lá chegamos) de me desprender do facto de ter os 2 primeiros livros em português, comprando os 3 no original em inglês. Vai de pesquisar no Book Depository, e eis que descubro duas coisas: que entretanto tinha saído um quarto livro ("Dial M for Merde"), e que cada um deles custava €7–€8 (com portes grátis). Pensei durante cerca de 37 segundos, adicionei todos de rajada ao carrinho de compras, e pumba: €30, portes incluídos. Comprei a colecção toda por praticamente o mesmo dinheiro que tinha dado pelas edições portuguesas dos dois primeiros livros, poupando assim dinheiro, e tempo. Tempo de espera pelas edições portuguesas, e tempo a ler as míticas notas de rodapé "N. da T." que me tentam explicar trocadilhos que se perdem na tradução.
Hoje, no comboio, vinha a dar conta da minha leitura actual (Hard-boiled Wonderland and the End of the World, de Haruki Murakami), e, depois de um plot twist que me deixou de queixo à banda (e me iluminou sobre a verdadeira ligação entre as duas histórias do livro), deparo-me com um puzzle teórico bastante interessante:
Como se consegue gravar uma enciclopédia inteira... num palito?
Sim, leram bem: num palito. Ora a coisa tem uns certos contornos matemáticos, mas é capaz de ser fácil de seguir o suficiente. A ideia é transformar o texto em números; cada letra (dígito, símbolo, espaços, etc.) é transformada num número de dois dígitos, por exemplo:
Se quisermos, por exemplo, escrever "AMOR.", ficamos com 1123252837. A este número, juntamos um zero e uma vírgula (ou um ponto decimal, conforme a nacionalidade e o gosto de cada um
), ficando com algo como: 0,1123252837. A ideia agora (e relembro que este é um puzzle teórico) é cravar uma marca no palito, a uma distância correspondente a respectiva fracção do comprimento do palito (por exemplo, se tivéssemos ficado com 0,25 a marca seria feita a um quarto do comprimento do palito de distância de uma das extermidades — que seria considerada “o zero”).
Desta forma, independentemente do comprimento do palito, dada precisão suficiente, é possível escrever infinitos registos de comprimento infinito.
No livro, este puzzle teórico de cariz extremamente matemático é utilizado como metáfora para a vida, transmitindo a ideia de que infinitude não é uma questão de tamanho, mas sim de precisão. Que a nossa experiência pessoal de eternidade não passa por viver mais tempo, mas por tirar o máximo de partido de cada momento.
Pode talvez parecer desinteressante para uma boa parte de quem ler, especialmente pelo embrulho matemático da coisa (essa ciência tão pouco popular), mas é uma excelente lição das duas coisas: de matemática, e de vida.
Já só falta um exame. Dos outros três, um já tem nota e tudo (fiquei com 19 à cadeira), e os outros estou à espera (e a contar não ficar satisfeito com a nota - não me correram tão bem assim - e ir à 2.ª data melhorar).
O exame que falta é duma coisa secante e que, na minha opinião, foi mal dada: Estrutura e Gestão das Organizações. Não sei o que era suposto aprender, porque não aprendi nada. O semestre foi preenchido entre aulas de despejo de matéria auxiliadas por slides cheios de texto inútil, palestras cujo relacionamento com o tema da cadeira é bastante ténue, e um trabalho também algo vácuo de enquadramento. Era uma cadeira que pedia tão mais estímulo ao interesse, à participação, ao debate, e foi tão dada à-la licenciatura: numa clara luta de titãs entre um professor a debitar matéria e o efeito (insuficientemente) estimulante da cafeína.
Dada a falta de Norte que eu padeço (eu e os restantes inscritos na cadeira, diga-se de passagem), a minha pilha de leitura é actualmente constituída (não contando com a porra dos slides das aulas) por (não muito) belos livros como:
Fica mais uns tempos a meio o Restaurante at the End of the Universe do Douglas Adams, e vou ter de esperar também um tempinho até poder começar o A Wild Sheep Chase, do Haruki Murakami (tão docilmente oferecido por esse ser humano exemplar que é a minha namorada).