Quinta-feira, 15.12.11

O PCP não sabe fazer contas

PCP diz que aumento [na electricidade] é de 25% porque, além de a tarifa aumentar 4%, já houve a subida do IVA de 23% para 6%.

Ora bem, como direi isto... nem sendo a besta mais estúpida do mundo e fazendo a típica conta errada isto chega perto dos 25! Senão vejamos: o típico tuga quando vê aumentos de IVAs e outras percentagens toca a somar e subtrair como se não houvesse amanhã. Temos então a conta errada (em fonte com serifas, para meter mais respeito):

(23 - 6) + 4 = 21

Fazendo a conta certa — ou seja, aplicando, por multiplicação, os coeficientes correspondentes às mexidas nas percentagens, temos:

(conta ÷ 1,06) × 1,23 × 1,04 = conta × 1,207 (aproximadamente)

o que corresponde, portanto, a um aumento de 20,7%. Mesmo assim, não é este o aumento real, já que nem todas as parcelas da conta da luz são sujeitas a IVA e/ou ao aumento de 4% (que, ao que parece, é só na tarifa). Mais daqui a bocado até posso confirmar quais, porque tenho aqui a conta da luz para abrir (estou a ganhar coragem, este mês tivemos de abusar nos termoventiladores).

Mas enfim, é a oposição que temos...

Piolho Sintético às 20:04 | link do post | comentar
Quinta-feira, 20.10.11

Mega-pirete

Eu sei que a greve, a revolta, e essas coisas todas, são um direito que nos assiste. Sei que o cinto está a apertar. Sei que muita gente acha que é preciso fazer como os gregos e partir tudo, e fazer greves de semanas. Sei também que muita dessa gente pseudo-revoltada faz parte dos <inserir quantidade inferior a 50% para servir como metáfora para o conjunto minoritário de pessoas que contribuiram para esta merda>. Uns compraram carro, casa no cu de Judas (porque morar na cidade é caro, ir e vir todos os dias de carro não), Bimby, plasma, Blu-Ray, iPhone, iPad, PlayStation, metade do IKEA, deram-lhes crédito para tudo isso para lá das possibilidades, e agora a bolha rebentou. Outros trabalham com uma parte do ordenado a vir "pela porta do cavalo", arrendam casa e fazem cambalacho com o senhorio para pagarem uma parte da renda por fora e candidatarem-se ao Porta 65, mentem à DGES para terem bolsa de acção social para pagar o traje e as bebedeiras, dispensam a factura na oficina para não pagarem o IVA, e põem todas as culpas nos políticos.

Pessoalmente, prefiro estar aqui, de consciência tranquila em como não vivo para lá das minhas possibilidades nem de esquemas. A trabalhar árdua e honestamente, a produzir papers e a ensinar a próxima geração de engenheiros, a constituir a massa crítica científica e tecnológica de Portugal. Prefiro estar a trabalhar, dentro das minhas competências, para poder ter razões para mandar para o caralho, com todas as letras, quem acha que Portugal é um país de segunda linha. Hoje foi aceite mais um paper de minha co-autoria, vou preparar os slides desse paper e os de um seminário que apresento para a semana, e mais logo dou aulas a uma turma particularmente trabalhadora de alunos do 2.º ano — e gosto de pensar que um dia assim é uma pequena parte de uma pequena parte de um mega-pirete àquela gente toda.

(Quanto aos destinatários do mega-pirete, não falo apenas da Merkel, da Moody's, e dos finlandeses. Falo também de quem passa a vida a mamar na generosidade base do nosso sistema de "estado social", e ainda nos esquemas que aproveitam a ingenuidade desse mesmo sistema para aumentar unilateralmente essa generosidade, e agora dizem que já deviam era ter ido "lá para fora".)

Domingo, 29.05.11

Banco Alimentar contra a fome

Neste país há fome. [...] Não é suposto virar-se a cara e fazer de conta que não se vê.

Made in Lisbon

Ao lado de minha casa, mesmo ao lado, porta com porta, há um Pingo Doce. Quando há campanhas do Banco Alimentar, dou lá sempre um saco, chego a ir de propósito só para isso. Ontem nem sabia que havia recolha, fui lá comprar umas coisas e, assim que percebi que havia recolha, fui direitinho buscar um saco vazio. Não dei muito, desta vez: uma lata de salsichas, uma lata de atum, e um pacote de massa. Mas ao menos dei. Fico com a consciência tranquila de que, com 1 euro e meio (que não me deixou gravosamente mais pobre), posso ter dado de jantar a 3 ou 4 pessoas necessitadas. Custava assim tanto muito mais gente fazer o mesmo? 1,50€ não chega a meio maço de tabaço, porra! Tal como a Maria, passei por privações, mas não passei fome. Não passei porque, no meio das privações, houve quem passasse fome para que eu não passasse. O pior que me aconteceu foi comer iscas quase todos os dias, magistralmente confeccionadas de formas diferentes para parecer que era um prato diferente. Não passei fome, mas vi-a passar, e isso não se esquece.

Adiante.

O donativo que referi foi depois do almoço. Ao fim da tarde tive de lá voltar porque me tinha esquecido de comprar algo. Fui abordado pelos voluntários do Banco Alimentar, mas prontamente lhes dei as boas tardes e disse que já tinha ali ido anteriormente e tinha feito o meu donativo. Quando estava na fila para a caixa, pus-me a reparar nas pessoas que entravam, e passavam pelos voluntários, e é incrível a esmagadora maioria de pessoas que baixa ligeiramente o pescoço e passa a direito, sem dizer ai nem ui, e deixando os voluntários a “falar para a mão” (nem para a mão é, é mesmo para o ar). Ninguém é obrigado a dar, não contrario isto. Mas ver tanta gente enterrar a cabeça na areia perante tudo isto dói. Como dizia o meu pai, “a boca que diz ‘sim’, diz ‘não’ ”. E di-lo tão melhor quanto bem alimentada esteja: que nunca lhes falte.

Edit: Wow, não imaginava que este post ia dar esta explosão de visitas e comentários. Obrigado ao SAPO por ter destacado proeminentemente este post na sua página inicial.

Segunda-feira, 11.04.11

Do Acordo Ortográfico

Como o assunto está (sempre) na ordem do dia e o comentário deu um certo trabalho, promovo a post(a) o que escrevi em resposta a um post da Joana.

Tenho várias razões objectivas contra o AO, mas não consigo concordar com apelos e cartas abertas que parecem escritos pelo PNR. Frases como “O português nasceu em Portugal, não no Brasil” parecem saídas directamente da boca de um taxista. Frases como “[...] aprender que eles dizem esporte e nós dizemos desporto” (Carta aberta aos Professores de Português [RV]), em que os “eles” nem sequer foram instanciados no texto que antecede a frase, são de uma paranóia que faz lembrar as referências implícitas aos judeus em filmes como “O Rapaz do Pijama às Riscas”. E acima de tudo, revelam um desconhecimento (ou uma falácia de enquadramento, vulgo “palas como as dos burros”) em relação à totalidade do AO. Para que conste, os brasileiros adoptam a nossa grafia em palavras como “ideia” (vs. “idéia”), ou “aguentar” (vs. “agüentar”, e é incontável o número de palavras em que isto acontece, além do facto interessante de que esse trema já se usou em Portugal). E esta, hã? O AO tem muitos defeitos, mas o argumento nacionalista é forma errada de os apontar. Por muito que (como se pode ver) vá continuar a usar a ortografia que sempre conheci e sempre tratei bem, não sou capaz de subscrever uma iniciativa destas. Um apelo contra o AO em que a palavra “Brasil” surge 3 vezes e coisas como “etimologia” (ou derivadas) ou “(dupla) grafia” não surgem nenhuma é uma mera diarreia mental.

Nota importante (já que o comentário, na altura, gerou essa dúvida): não sou a favor do AO.

Sexta-feira, 28.01.11

Coisas que detesto, capítulo IV

(Um capítulo pequenino com coisas que me lembrei nos últimos dias. A série toda pode ser lida na tag coisas que detesto.)

Que digam que, em Portugal, “facto” vai passar a escrever-se “fato”, e que “indemnizar” passa a “indenizar”. Por muito que eu não tenha nenhuma obrigação oficial (profissional) de adoptar o novo acordo, e que do ponto de vista da escrita pessoal “’tou me pouco cagando”, isto irrita-me.

Que chamem “mestrado integrado” a um mestrado de 2 anos (pós-Bolonha). Que me liguem logo depois de me enviarem um email, começando por perguntar “se o li”, e acabando por, pouco a pouco, repetir ao telefone tudo o que disseram no mail.

Segunda-feira, 07.06.10

Anatomia financeira de um bilhete de concerto

Comprei hoje, online, bilhetes para a representação do “The Wall” (chamar-lhe concerto é redutor) por Roger Waters (Pavilhão Atlântico, dia 21 de Março de 2011). Há pouco lembrei-me de analisar o comprovativo de compra, e desconstruir a comissão de 6% que a Blueticket (responsável pela venda dos bilhetes) cobra pela compra online. Ora vejamos:

  1. Os bilhetes têm um preço (i)líquido (nunca sei qual é qual, elucidem-me) de X, ao qual acresce 5% de IVA
  2. Pedi para os bilhetes serem enviados por Correio Verde, pelo que me é cobrada a importância de €1,95 (isenta de IVA)
  3. A comissão de serviço que é cobrada é de 6% sobre o preço dos bilhetes incluindo os 5% de IVA
  4. À comissão de serviço acresce IVA de 20%

Resumindo: paga-se 20% de IVA numa comissão que incide sobre: (i) um valor que já tem, ele próprio, IVA, e (ii) o valor de um serviço prestado por terceiros, que já estamos a pagar pelo justo valor (€1,95).

O ministro Teixeira dos Santos deve dar um bacalhau todos os Natais a esta malta, só pode...

Piolho Sintético às 14:47 | link do post | comentar
Terça-feira, 20.04.10

A petição mais pequena do mundo

Dado ser um sistema judicial um nadinha mais célere que o nosso, espantamo-nos a ver pela Net estórias de gente nos EUA que põe processos em tribunal por tudo e mais alguma coisa. Cá, fazem-se petições online. Desde o advento da Internet, o mínimo prurido que aflija mais que um determinado número de pessoas resulta numa petição online. E ainda me lembro de ver petições bastante bem escriitas e contextualizadas, nem que fosse a pedir para acabar com os Morangos com Açúcar, mas parece que isso já não se usa.

Hoje recebi um link a pedir para assinar uma tal de Petição “Libertem Militar da GNR”. Passo a reproduzir integralmente qual é(ra) o texto da mesma (no momento em que escrevo este post):

Para:Tribunal de Loures

Um militar da GNR acusado de ter morto a tiro um jovem de 18 anos em 2006 foi hoje condenado a 16 anos de prisão pelo Tribunal de Loures.
Vamos assinar a pedir a libertação deste Homem.

Os signatários

É isto. Só. Não se recorda a situação, nem são dados argumentos. Tanto os possíveis signatários (que não conhecem ou não se lembram da situação em particular) como os destinatários ficam rigorosamente na mesma. Ou então assinam de cruz, sem conhecer ambos os lados da história*, e na verdade no final de contas não sabem se concordam ou não com aquilo que subescreveram.

 

* - Nota: este texto é sobre o texto (ou falta dele) da petilção, mas não sobre o teor da mesma. Não pretendo fazer juízos sobre se o que é pedido é justo ou não, até porque faço parte do conjunto de pessoas que não conhece a estória (fiquei na mesma, e não assinei). Reservo-me ao direito de apagar quaisquer comentários que venham tentar criar uma discussão sobre a Justiça, etc., blá blá (quem estou a tentar enganar? o blog é meu, reservo-me ao direito de apagar quaisquer comentários, ponto).

Piolho Sintético às 13:54 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 07.04.10

É o fio dental para cima e as caixas para baixo

Até parecia mal se eu não desse o meu bitaite sobre o fenómeno viral dos últimos dias, a tal de Katyzinha — uma adolescente que tenta roubar o espectro de opinião do Carlos Castro e da Paula Bobone, mas com a delicadeza e o bom gosto para aí do Fernando "Macaco" Madureira. Não vale muito a pena fazer comentários ao vídeo, à credibilidade dos conselhos de moda da miss, etc., mas gostaria de partilhar uma teoria: porque é que ela, tendo um ódio tão figadal a algo tão simples como "uma gáija andar de Alstares", acha que gajo "mêmo bom" é aquele que anda com as calças por baixo do cu?

A minha teoria é de que, sendo ela, básica e simplesmente, uma pita, deve ter visto televisão pela primeira vez para aí em 1994, e apanhou logo o Telejornal a passar as imagens da manifestação contra a PGA. Como toda a gente sabe, a primeira impressão é a que fica; a moça deve ter ficado com aquela imagem do "Não pagamos" queimada na retina, e ainda hoje pensa que andar com o cu de fora é uma coisa normal e socialmente aceite.

Piolho Sintético às 20:26 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 09.02.10

Blockbuster: "We just haven't got a clue what to do"

Ora então diz que a Blockbuster está a ir com os porcos. E claro, a culpa é da pirataria.

Eh pá, não me lixem. Facto: o download ilegal de conteúdos protegidos por direitos de autor traduz-se em dinheiro que não vai parar às mãos de “alguém”, não digo o contrário. Mas também é facto que:

  • a oferta de conteúdos em DVD/Bluray para compra é muito maior e relativamente mais acessível do que quando apareceu o DVD;
  • a oferta de conteúdos em DVD/Bluray é brutalmente maior agora do que era no tempo do VHS;
  • há muito mais cinemas (não que sejam baratos, mas sempre se vê com melhor qualidade e sem esperar 1 ano);
  • os operadores de televisão (ZON, Meo, etc.) prestam um serviço que inclui aluguer de filmes (ao estilo de clube de vídeo) sem tirar o cú do sofá;
  • esses operadores facilitam também a gravação de filmes que dêem a horas inacessíveis para se ver posteriormente.

Ou seja, há todo um conjunto de factores perfeitamente dentro da legalidade que retiram o interesse nos clubes de vídeo (que, entretanto, não evoluiram). Mas claro, é mais fácil e está mais na moda culpar a pirataria, que é logo o único possível factor que já existia no tempo em que os clubes de vídeo mexiam — ou já ninguém se lembra de gravar filmes da TV em VHS, para os quais até a TV Guia fornecia umas simpáticas folhas para embelezar a capa?

Piolho Sintético às 10:59 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Domingo, 31.01.10

Eu e o acordo ortográfico

Hoje, depois de ir tomando contacto com alguns trechos dos seus efeitos, pela primeira vez, li uma descrição concisa de alterações "impostas" pelo novo acordo ortográfico. Apesar de achar hediondas algumas das alterações e, principalmente, as incoerências facilmente detectáveis, não sou contra o acordo ortográfico, nem a favor. Para que conste mais ou menos publicamente, a minha posição (de um ponto de vista prático, ou seja, conquanto influencia a forma como escrevo e irei escrever no futuro) é:

'Tou me pouco cagando.

Vou continuar a escrever o mesmo Português que escrevo há cerca de duas décadas. Se durante todo este tempo tive de ler pontapés horríveis na gramática e na ortografia, os quais sempre se entendeu "não ficar bem" estar a corrigir (porque se passa por pedante, ou porque "o que importa é que se perceba", ou porque apontar o dedo a doutorados que escrevem que as notas "saiem" para a semana e perguntam se já "escreves-te" o relatório é capaz de cair mal), estamos quites. Vou continuar a escrever, correctamente, no Portuguẽs que aprendi. Lerei e compreenderei os textos que se me apresentarem nessa nova metamorfose do Português, da mesma forma que consigo ler um texto em Português mal escrito, ou em Catalão. Mas desculpem lá, vão ter de tolerar o meu Português arcaico.

Piolho Sintético às 14:36 | link do post | comentar

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